Em
Quenga de Plástico.
Dia desses, a esmo na Rua augusta, lá pelas tantas, bebi sei lá também quantas e deixei cair, displicentemente, uma foto em que eu estava de costas, nua. Como não aparece meu rosto, só quem me comeu sabe que sou eu. Agora há cópias e xerox e reproduções malucas dessa foto pela cidade. Está rodando. Atingindo proporções avassaladoras. Penso que o fato me faz importante, não sei explicar detalhadamente a emoção de ser uma semi-celebridade quase- no- ápice da esperança de conseguir qualquer uma fama. Quando penso na posteridade, chego à conclusão de que, talvez, a nudez será o meu legado. Ontem, ainda cedo, conheci um cara que se apresentou como capitão Renascimento. Meteu o olhar dentro de mim. Me apertou contra o seu peitoral. Olhar de tropa, peitoral de elite. Chamei a Lurdirina para me ajudar na escolha da pouca roupa que eu usarei para encontrá-lo hoje. Ela conhece tendência francesa e londrina. Tem os furos da moda! Tudo por causa de um filme, onde ela não teve um papel vá lá muito bom, porque é baixa, e como precisavam de uma anã chupadora, ela topou. Por lá ficou com seu metro e 40 de altura nessa de chupar paus para filmes. Depois fazer boquete em rodies, nos shows espetaculares, na fruição do pau visto pela luz estroboscópica. Acho que Lurdirina é foderástica. Por que ela goza sozinha, pensando, é um exercício de concentração que exige muito treinamento e esperança. Lurdirina me diz que tem por certo que o gozo vai arrebatá-la. Esse treinamento a faz estar sempre gemendo por aí, da fila da padaria ao ambulatório. Não tenho inveja de nada. Ela foi pra Europa sem um vintém, mas de chofer. Quando a Lurdirina resolve me visitar, é um pandemônio! Mesmo ao entrar aqui no hotel, é muito brusca e mal educada. Bate a porta com tanto escândalo, que até rugem as paredes. Penso que seja pelo gozo que ela pratica enquanto se movimenta, me parece que a nenhum estímulo externo ela se retém. Eu a perdôo por, às vezes, acreditar em seu orgasmo metafísico e aceito sua petulância endiabrada, sem nada perguntar. Chega, tira as luvas rendadas e as acaricia, está normalmente embriagada. Hoje bebeu até a sombra da garrafa. Mas não deixou de me trazer os biquinis. Fiquei cansada de provar, mas não posso parar de trocar de biquini sem parar. Temos que, no meio de tantos, encontrar o que envolva melhor meu corpo, e valorize em cima, porque parecem pássaros, os meus seios. Renas os quer! Trouxe também um “cavolen”, ninguém conhece porque foi ela quem criou a peça, é uma espécie de xale, quase um. Só que é usado ao contrário do tradicional. Pela frente, botõezinhos atrás. Ideal para sair com o Renas, para não entregar os pássaros de cara! O Mistério Dos Pássaros! Amanhã continuo da praia, se não aparecer, pode denunciar coronhada.
Na rodoviária.
Renascimento marcou às 11hrs da manhã. Cheguei. Fiquei dando voltas ovalares na rodoviária, pensando, pensando, pensando nele e a espera dele, que não chegava de jeito nenhum. Eu delirava, ele me abraçando por trás, com aquele pau que eu adoro chupar, e ele me dizendo aquelas coisas lindas que diz quando estamos fodendo, e cuspindo na minha boca. E ele não dava sinal de fumaça . Entardeceu, escureceu, até choveu e o biquini dentro da bolsa. Lá se foi um dia de sol, pensei, acendendo o cigarro na ponta do cigarro de um cara que conheci por lá. Chamava Rony Claus. Do interior do nordeste. Contei sobre minha profissão, ele ofereceu dinheiro por umazinha. Mas sou dançarina, não quenga, relutei. Ele me acariciou, aceitei. Fomos no banheiro da rodoviária. Gosto de fazer sexo no precário. Bem lixão o local. A gente se esfregou, ele me comeu com força, eu me retorcia de tesão. Ele me xingou de puta, não gostei! Achei que tivesse rolando um lance de pele, mas só rolou lance de pélvis.
Quando saí do banheiro, de cara com o Renas e seu peitoral! Ele me pegou pelo braço com violência, me denegriu com palavras sujas na frente dos retirantes. O Rony tentou sair de fino, não rolou. Renas pegou o cara e, literalmente
massacrou. Eu não tentei impedir, o cara tinha me chamado de puta mesmo...imaginem vocês, adorei! Nenhum homem nunca havia morrido por minha causa. Eu chorei de emoção. O renas não entendeu, achou que fosse por pena. Mas eu não choraria por outro na sua frente. Ainda assim, não conseguia sair de frente do cadáver.
Finalmente, entrei no ônibus com o Renascimento. Ele tava louco da cara! Queria me bater ali mesmo. Eu gosto disso nele, é por causa do signo. Leão na casa 10. A viagem foi deliciosa. Tirando uns tufos de cabelo que ele me arrancou enquanto falava coisas imundas. A gente dormiu coladinho. Quando acordei, o Renas estava chorando porque tinha me deixado toda roxa. Gosto de lembrar dessa cena. A mais romântica do mundo. O motorista falou pra galera descer, tínhamos 15 minutos. Dei um beijo no renas e fui fazer xixi, que por causa da confusão pós coito na rodoviária de são paulo, há tempos não fazia.
Minha sainha tava rasgada inteira, por causa dele. A blusa também furada, mas quanto a isso okai, que ela era de renda. Eu ali, mofina, parecendo uma quenga de beira de estrada. Os cachorros da rodoviária deste lugar obscuro resolveram mexer. Eu disse: meu marido é tropa de elite, e se faz isso comigo, imagine com você. Mostrei os hematomas. Pronto, tudo se acalmou e mijei em paz. Resolvi uma empada pra mim e outra pra ele, eu estava exultante, a gente tinha feito o maior sexo ali no banco do busão. Eu feliz, com as empadas na mão. Quando entrei no ônibus, o Renas tinha sumido. Eu procurei pelas poltronas, quando percebi que ele de fato havia fugido, paralisei. O motorista deu sinal de partida. Eu ali parada, tremendo de ponta a ponta. Desci do busão porque não sou louca de ir pro Rio de Janeiro sem grana. Nem conheço boates lá. Fiquei a noite inteira sentada do lado da máquina de bala e café. O ermo, tudo escuro. Frio, nuvem atrás de nuvem. A maior escuridão. E se eu for estuprada nesse covil, o Renas me paga, viu! Minha cabeça desvairada. Comecei a dançar pros cachorros da rodoviária em troca de qualquer coisa. Eles me pagaram 100 contos e nem tentaram forçar o coito. Dei sorte! :) Comprei um cartão e liguei pra Lurdirina, a vaca preocupada com o biquíni dela! Inveja é o mal dessa puta! Ela mandou em me virar. Peguei carona com um manézão do Rio. Vou atrás do Renas, nem que seja para vingar.
Terça-feira, 7 de Julho de 2009
Quarta-feira, 25 de Março de 2009
O Assassino de irrealidades
A alegria de Feliciena havia quadruplicado de espessura quando provou queijadinhas ao visitar a queijaria de Octávio Teodomir, seu temeroso pai. Nada a fazia irradiar tanto de emoção desde o bambolê.
Enquanto a alegria enchia-lhe o peito e um sol geral e absolutamente laranja seguia seu corpanzil verdeluzente, Feliciena soltava uma torrente de verbos inexistentes: grampearte-ei, suicidarte-ei, furim furim furarte-ei. As palavras, assim que saiam de sua boca, cantaroladas, eram espasmodicamente cortadas por Octavio Teodomir. Ele as assassinava mal eram formuladas por Feliciena. Ele as destruía e as enterrava em recônditos escuros de seu próprio corpo reluzente e límpido.
Assim ficou conhecido: Octávio Teodomir, o assassino de irrealidades.
Em seu corpo dormem as irrealidades do mundo.
Enquanto a alegria enchia-lhe o peito e um sol geral e absolutamente laranja seguia seu corpanzil verdeluzente, Feliciena soltava uma torrente de verbos inexistentes: grampearte-ei, suicidarte-ei, furim furim furarte-ei. As palavras, assim que saiam de sua boca, cantaroladas, eram espasmodicamente cortadas por Octavio Teodomir. Ele as assassinava mal eram formuladas por Feliciena. Ele as destruía e as enterrava em recônditos escuros de seu próprio corpo reluzente e límpido.
Assim ficou conhecido: Octávio Teodomir, o assassino de irrealidades.
Em seu corpo dormem as irrealidades do mundo.
Nada sentia para que resmungasse
Aí que está o extermínio
Quando há o veneno
Onde não mora o perigo.
Calava-se de fato
O coração
Membro exato
A pulsar de soslaio
Num recato
De não acordar vizinhos
De não bater prego, prelúdio
Pelas três da madrugada,
Seguindo o tédio a risca
De um grito abaixo de zero
Um Coração a menos surgiu
.
Não de ouvidos aos mortos, diz a voz que um dia me leva
.
O tédio o diminuía.
Diminuía
Diminuía
Minguou-se por inteiro
Que paradeiro!
Aí que está o extermínio
Quando há o veneno
Onde não mora o perigo.
Calava-se de fato
O coração
Membro exato
A pulsar de soslaio
Num recato
De não acordar vizinhos
De não bater prego, prelúdio
Pelas três da madrugada,
Seguindo o tédio a risca
De um grito abaixo de zero
Um Coração a menos surgiu
.
Não de ouvidos aos mortos, diz a voz que um dia me leva
.
O tédio o diminuía.
Diminuía
Diminuía
Minguou-se por inteiro
Que paradeiro!
Da inutilidade de abandonar pontes
O exercício do desprazer fatigava-lhe a visão. Tinha os olhos embaçados e um imenso nada lhe recheava o peito esmaecido. Qualquer farfuria, qualquer pilhéria o levaria ao não como um trago de ar pesado. Seu pulmão acizentou-se, o coração emaranhou-se num rabisco ansioso. O exercício de ir o recompunha, o de vir fatigava ainda mais suas retinas famigeradas.
Via brilhos de lantejoulas, a esfregar os olhos viveu, até se arriscar em uma ponte.
Uma ponte é uma ponte e nada se há de fazer, abandonou – a.
Como é inútil abandonar pontes, que não se importam com abandonos ou não abandonos e não podem puxá-lo de volta, com garras em todas as unhas e atirá-lo contra o abismo, nem invejar passarelas, com rancores atávicos e um profundo suor.
Uma ponte é uma ponte, elas estão por aí sendo atravessadas a todo momento. O que se há de fazer?
Via brilhos de lantejoulas, a esfregar os olhos viveu, até se arriscar em uma ponte.
Uma ponte é uma ponte e nada se há de fazer, abandonou – a.
Como é inútil abandonar pontes, que não se importam com abandonos ou não abandonos e não podem puxá-lo de volta, com garras em todas as unhas e atirá-lo contra o abismo, nem invejar passarelas, com rancores atávicos e um profundo suor.
Uma ponte é uma ponte, elas estão por aí sendo atravessadas a todo momento. O que se há de fazer?
O excomungato
Vivia as soltas no telhado. Beirava o rés dos tijolinhos e lambia as bordas das janelas altas de amplidão. A noite não uivava, a lua não namorava, como os gatos de cinema.
A igreja já havia habitado, mas jurou falso, perjurou, espirrou, miou, miou contra o padre que o assistia trespassado. Em orgias com gatas messalinas se pôs com vontade. Sempre ávido para a vida. Gostava das gatas manchadas de passado e pele. Entregou- se ao vicio. O jogo. Desde que nasceu em uma lata de lixo, sonhou em dar um salto lancinante até o teto do cassino e descer rasgando as placas de neon. Ganhando ou perdendo, o próximo lance era certeiro. Assim passava as noites até ver entrar o dia pelas frestas, e o entardecer baixar a noite, e jogava com maestria. Ganhava ou perdia, tanto fazia. Assim que sentia revirar o estômago, revirava as latas de lixo. Mas para Excomungato só sobrava o rebotalho do bosteiro. Um dia jogou no vermelho 27. Deu preto! Nem um cão entre os amigos Excomungato encontrou!
A igreja já havia habitado, mas jurou falso, perjurou, espirrou, miou, miou contra o padre que o assistia trespassado. Em orgias com gatas messalinas se pôs com vontade. Sempre ávido para a vida. Gostava das gatas manchadas de passado e pele. Entregou- se ao vicio. O jogo. Desde que nasceu em uma lata de lixo, sonhou em dar um salto lancinante até o teto do cassino e descer rasgando as placas de neon. Ganhando ou perdendo, o próximo lance era certeiro. Assim passava as noites até ver entrar o dia pelas frestas, e o entardecer baixar a noite, e jogava com maestria. Ganhava ou perdia, tanto fazia. Assim que sentia revirar o estômago, revirava as latas de lixo. Mas para Excomungato só sobrava o rebotalho do bosteiro. Um dia jogou no vermelho 27. Deu preto! Nem um cão entre os amigos Excomungato encontrou!
Sábado, 7 de Março de 2009
ERAS
perene prosseguia a velha em seu lençol envolvido no corpo macilento.
tão senis as ruas e pedestres pedintes, de favores, um punhado vindo de qualquer dedo que desse.
mas perene prosseguia e velha ainda e a cada passo mais era velha, demais velha para assuntos, tão velha para ouvidos que a fala encontrava-se velha de tomar ar e subir verbo. velha daquelas que estão aí para tossir e apenas a tossir, como quem deixa voar em perdigotos a memória farta .
fazia tempo que não ouvia bem, resolveu ver filme mudo. Seu cachorro há tempos que trotava, mal da perna, mau no osso, o olho contornado com remelas de anteontem.
mas perenes prosseguiam.
tão senis as ruas e pedestres pedintes, de favores, um punhado vindo de qualquer dedo que desse.
mas perene prosseguia e velha ainda e a cada passo mais era velha, demais velha para assuntos, tão velha para ouvidos que a fala encontrava-se velha de tomar ar e subir verbo. velha daquelas que estão aí para tossir e apenas a tossir, como quem deixa voar em perdigotos a memória farta .
fazia tempo que não ouvia bem, resolveu ver filme mudo. Seu cachorro há tempos que trotava, mal da perna, mau no osso, o olho contornado com remelas de anteontem.
mas perenes prosseguiam.
A fodida rosa selvagem
que mal me pergunte, por que contornei de giz minha sombra para atirar facas, tentando acertar o centro do contorno? Eu tinhas em minhas mãos a flor do passado. A fodida rosa. Continuarei a ler revistas de páginas pretas que escurecem a cada virada, sob meu olhar trêmulo. Apenas quero que seja liso o dia, pálido e liso, como um pierrot. Pálido a soluços constantes como fracassos constantes de facas que não acertam o centro inexato. Que tal se o dia (que insiste em nascer) acordasse branco, folha de flor? A rosa selvagem. Mas estanca em páginas vazias a revista de cor negra, no meio das folhas, amassada, mais uma folha de flor. Já esteve em meio aos lírios, aguada pelo tempo, na relva, recolhida no aconhego matinal dos jardins. Já esteve em outro passado, enquanto eu não pensava em atirar facas no meu próprio contorno, não pensava em folhas de flores. Agora jaz em minhas páginas pretas, soturnas e distantes do paraíso, a fodida rosa selvagem.
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