quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Os dias têm o peso e o poder da noite. Os seres existentes, presos na luz solar, são guiados por impulsos fleumáticos. A noite havia se escondido atrás da lua e a lua, resolvida a flanar pelas ruas pálidas, transitava. A noite vive guardada nos bolsos da lua; a lua usa a noite como moeda e a converte em cigarros para convertê-los em fumaça e passa horas observando suas formas deambulantes. Crianças se horrorizam em festins com tobogãs em direção ao inferno, brincam de equilibristas, andando e volteando no fio tênue de um arame farpado. E a noite não chega. É nunca noite.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O Assassino de irrealidades

A alegria de Feliciena havia quadruplicado de espessura quando provou queijadinhas ao visitar a queijaria de Octávio Teodomir, seu temeroso pai. Nada a fazia irradiar tanto de emoção desde o bambolê.

Enquanto a alegria enchia-lhe o peito e um sol geral e absolutamente laranja seguia seu corpanzil verdeluzente, Feliciena soltava uma torrente de verbos inexistentes: grampearte-ei, suicidarte-ei, furim furim furarte-ei. As palavras, assim que saiam de sua boca, cantaroladas, eram espasmodicamente cortadas por Octavio Teodomir. Ele as assassinava mal eram formuladas por Feliciena. Ele as destruía e as enterrava em recônditos escuros de seu próprio corpo reluzente e límpido.
Assim ficou conhecido: Octávio Teodomir, o assassino de irrealidades.

Em seu corpo dormem as irrealidades do mundo.
Nada sentia para que resmungasse
Aí que está o extermínio
Quando há o veneno
Onde não mora o perigo.

Calava-se de fato
O coração
Membro exato
A pulsar de soslaio
Num recato
De não acordar vizinhos
De não bater prego, prelúdio

Pelas três da madrugada,
Seguindo o tédio a risca
De um grito abaixo de zero
Um Coração a menos surgiu

Da inutilidade de abandonar pontes

O exercício do desprazer fatigava-lhe a visão. Tinha os olhos embaçados e um imenso nada lhe recheava o peito esmaecido. Qualquer farfuria, qualquer pilhéria o levaria ao não como um trago de ar pesado. Seu pulmão acizentou-se, o coração emaranhou-se num rabisco ansioso. O exercício de ir o recompunha, o de vir fatigava ainda mais suas retinas famigeradas.
Via brilhos de lantejoulas, a esfregar os olhos viveu, até se arriscar em uma ponte.
Uma ponte é uma ponte e nada se há de fazer, abandonou – a.
Como é inútil abandonar pontes, que não se importam com abandonos ou não abandonos e não podem puxá-lo de volta, com garras em todas as unhas e atirá-lo contra o abismo, nem invejar passarelas, com rancores atávicos e um profundo suor.
Uma ponte é uma ponte, elas estão por aí sendo atravessadas a todo momento. O que se há de fazer?

O excomungato

Vivia as soltas no telhado. Beirava o rés dos tijolinhos e lambia as bordas das janelas altas de amplidão. A noite não uivava, a lua não namorava, como os gatos de cinema.
A igreja já havia habitado, mas jurou falso, perjurou, espirrou, miou, miou contra o padre que o assistia trespassado. Em orgias com gatas messalinas se pôs com vontade. Sempre ávido para a vida. Gostava das gatas manchadas de passado e pele. Entregou- se ao vicio. O jogo. Desde que nasceu em uma lata de lixo, sonhou em dar um salto lancinante até o teto do cassino e descer rasgando as placas de neon. Ganhando ou perdendo, o próximo lance era certeiro. Assim passava as noites até ver entrar o dia pelas frestas, e o entardecer baixar a noite, e jogava com maestria. Ganhava ou perdia, tanto fazia. Assim que sentia revirar o estômago, revirava as latas de lixo. Mas para Excomungato só sobrava o rebotalho do bosteiro. Um dia jogou no vermelho 27. Deu preto! Nem um cão entre os amigos Excomungato encontrou!

sábado, 7 de março de 2009

ERAS

perene prosseguia a velha em seu lençol envolvido no corpo macilento.
tão senis as ruas e pedestres pedintes, de favores, um punhado vindo de qualquer dedo que desse.
mas perene prosseguia e velha ainda e a cada passo mais era velha, demais velha para assuntos, tão velha para ouvidos que a fala encontrava-se velha de tomar ar e subir verbo. velha daquelas que estão aí para tossir e apenas a tossir, como quem deixa voar em perdigotos a memória farta .

fazia tempo que não ouvia bem, resolveu ver filme mudo. Seu cachorro há tempos que trotava, mal da perna, mau no osso, o olho contornado com remelas de anteontem.


mas perenes prosseguiam.

A fodida rosa selvagem

que mal me pergunte, por que contornei de giz minha sombra para atirar facas, tentando acertar o centro do contorno? Eu tinhas em minhas mãos a flor do passado. A fodida rosa. Continuarei a ler revistas de páginas pretas que escurecem a cada virada, sob meu olhar trêmulo. Apenas quero que seja liso o dia, pálido e liso, como um pierrot. Pálido a soluços constantes como fracassos constantes de facas que não acertam o centro inexato. Que tal se o dia (que insiste em nascer) acordasse branco, folha de flor? A rosa selvagem. Mas estanca em páginas vazias a revista de cor negra, no meio das folhas, amassada, mais uma folha de flor. Já esteve em meio aos lírios, aguada pelo tempo, na relva, recolhida no aconhego matinal dos jardins. Já esteve em outro passado, enquanto eu não pensava em atirar facas no meu próprio contorno, não pensava em folhas de flores. Agora jaz em minhas páginas pretas, soturnas e distantes do paraíso, a fodida rosa selvagem.